Verdades Transitórias

Por Cassia Fragata

O zika vírus surgiu pela primeira vez nos anos 1940 em Uganda, na África e, mais de 20 anos depois foi detectado em humanos, na Nigéria.

No Brasil, foi identificado no início de 2015 e, de lá pra cá, tem gerado muita preocupação e trabalho para a comunidade científica e inúmeras dúvidas entre os pacientes, em especial, as gestantes.

Os estudos se reproduzem e a mídia mal dá conta de divulgar tantas novidades. Mas é fundamental estarmos atentos a esse turbilhão de informações. “Pelo surto em nosso país ter sido muito agudo e assustador, com armas limitadas para o combate a esse mal, o número de publicações científicas se multiplicou rapidamente”, explica a ginecologista e especialista em reprodução assistida, Dra. Hitomi Miura Nakagawa.

Efeito rebanho

A revista Science publicou em 15 de julho de 2016, estudo realizado por cientistas do Imperial College de Londres sobre a epidemia de zika vírus na América Latina. O trabalho apresenta uma nova perspectiva sobre o surto que vem atingindo o Brasil de forma severa.

Segundo os pesquisadores, liderados por Neil Ferguson, professor e autor do estudo, a epidemia já teria atingido o seu ápice e poderia acabar por si só, em dois ou três anos. Para ele, o surto atual terminaria devido a um fenômeno chamado “efeito rebanho”. Partindo do princípio que os indivíduos seriam contaminados pelo zika apenas uma vez, a epidemia atingiria um estágio em que restariam poucas pessoas a serem infectadas.

Para Melissa Falcão, membro do Comitê de Arbovirose da Sociedade Brasileira de Infectologia, a transmissão do zika vírus numa população depende da ecologia local, história natural da doença e suscetibilidade da população à infecção. “Vai variar na dependência do meio ambiente local, comportamento humano, abundância de vetor e potencialidade de interação com outros vírus”, explica. “Espera-se uma redução no número de casos à medida que a população for exposta ao vírus adquirindo, provavelmente, imunidade permanente, e existam menos indivíduos suscetíveis à infecção”, pondera a infectologista sobre o “efeito rebanho”.

Esforços mantidos

Os estudos apontam para soluções promissoras, mas o tempo, o meio ambiente, o organismo humano e até mesmo o mosquito transmissor podem surpreender. Portanto, manter os cuidados básicos na luta contra o zika vírus e seu maior transmissor, o aedes aegypti, é essencial para reduzirmos o número de casos e suas implicações, em especial as consequências que podem afetar as gestantes e seus bebês.

”Podemos dizer que estamos vivendo um momento de várias ‘verdades transitórias’”, alerta Hitomi Miura Nakagawa. “Mesmo que torçamos pela confirmação dos achados e justificativas de muitas pesquisas, frequentemente, somos obrigados a aguardar para aplicar na nossa prática clínica diária”, conclui a especialista.

A infectologista Melissa Falcão concorda. “Apesar desta expectativa, todos os esforços devem ser mantidos na produção de vacinas e detecção de drogas antivirais que consigam impedir a passagem do vírus da gestante para o feto, além das medidas para controle vetorial e para proteção pessoal”.

Cuidados essenciais

Enquanto a comunidade científica trabalha arduamente buscando uma solução promissora para controlar a epidemia de zika vírus e a proliferação do aedes aegypti é fundamental que a população faça a sua parte, principalmente as gestantes.

Use sempre um repelente, seguindo a orientação de utilização do fabricante, evite aglomerações em lugares onde a presença do mosquito é maior, use roupas que protejam braços e pernas nesses locais e, quando possível, faça uso do ventilador e do ar condicionado.

Dispense os famosos pratinhos colocados embaixo dos vasos e não se esqueça de observar os possíveis criadouros que mantemos em nossa própria casa. Não acumule objetos em quintais, jardins e garagens, esteja atento ao correto fechamento da caixa d’água, troque com frequência a água dos potes dos animais e livre-se definitivamente de garrafas, latas, pneus, vasos e recipientes deixados ao ar livre. Em locais com grande incidência do mosquito é importante utilizar telas nas janelas e mosquiteiros nas camas e berços.

Lembre-se que o zika vírus pode ser transmitido por contato sexual, pois é encontrado no sêmen por longos períodos. Portanto, é fundamental o uso do preservativo para impedir a sua transmissão. É importante ressaltar que, mesmo que a mulher esteja grávida, o uso do preservativo é essencial para que não corra o risco de se contaminar durante a gestação e transmitir o vírus para o feto.

Jornalista responsável: Cassia Fragata