#vamosconversar

Por Cássia Fragata

Vivemos em um tempo único, tempo de perguntas, de incertezas, de informações variadas e de muita ansiedade para os casais que planejam uma gravidez. Queremos promover uma conversa saudável, baseada em fatos científicos, com o objetivo de ajudar quem deseja engravidar em tempos de zika vírus. Então, #vamosconversar!

Todos os dias somos surpreendidos pela mídia com várias novidades sobre o zika vírus e, na maioria das vezes, elas são assustadoras e nos causam um grande número de incertezas e muitos medos. Nos consultórios, os casais que querem engravidar procuram esclarecer suas dúvidas sobre o vírus, sobre a microcefalia, as formas de contagio e os sintomas. “Eles sentem dificuldades em ter fontes fidedignas, confiáveis para poder se basear e tomar suas decisões de ter ou não filhos, de qual o melhor momento para isso e quais os riscos”, explica a ginecologista e especialista em reprodução assistida, Dra. Hitomi Miura Nakagawa.

Presidente da Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida – SBRA, idealizadora da campanha #vamosconversar, Hitomi Nakagawa reuniu especialistas e envolveu parceiros com o objetivo de “oferecer a esses casais elementos cientificamente comprovados, informando e orientando aqueles que pretendem aumentar a família em tempos de zika vírus”, relata a médica.

Dessa forma, a Sociedade Brasileira de Reprodução Humana – SBRH, a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia – FEBRASGO, a Rede Latino-americana de Reprodução Assistida – REDLARA, com o apoio da Sociedade Brasileira de Urologia – SBU e da Sociedade Brasileira de Infectologia – SBI se uniram para criar um canal direto com a população.

“Queremos trazer as informações atualizadas para todos, para que eles possam decidir o momento adequado para engravidar, o melhor caminho para si, evitando que tenham uma gravidez indesejada”, esclarece Dra. Hitomi.

Gravidez em tempos de zika

A principal forma de contagio do zika vírus é por meio da picada do aedes aegypti, o mesmo que transmite a dengue e a chikungunya. O mosquito propaga o vírus ao picar uma pessoa infectada e, posteriormente uma saudável. As outras formas de contágio são o contato sexual, a transfusão de sangue e a transmissão durante a gestação, da mãe para o feto, e essa é, sem dúvida, a maior preocupação dos casais que querem engravidar, já que a infecção pode causar problemas graves ao bebê.

O zika vírus pode ser transmitido durante a gestação, mas não necessariamente essa criança nascerá com microcefalia ou algum outro problema de má formação ou anomalias. “Na gravidez a gestante infectada pelo zika pode causar alterações no feto como a microcefalia ou a artrogripose – uma deformidade nos membros superiores ou inferiores”, explica a Dra. Melissa Falcão, membro do Comitê de Arbovirose da Sociedade Brasileira de Infectologia. “Mas é importante esclarecer que não é toda a gestante que tem o zika que vai desenvolver alterações no feto”. Segundo a infectologista, a literatura médica apresenta uma porcentagem que varia de 1 a 13%. “Portanto, a maioria das mulheres que tiverem o zika vírus durante a gestação terá uma gravidez sem alterações”, ressalta.

Os cuidados pessoais e com a casa são a melhor forma de prevenção contra o zika vírus. “Criou-se uma grande ansiedade nas mulheres que estão grávidas e nas que querem engravidar, então nossa campanha quer informar as gestantes a melhor maneira de se prevenir, mostrando que a zika só vai causar problemas se acontecer a infecção”, diz Melissa Falcão. “Se houver a prevenção, a mulher pode ter uma gravidez de maneira segura”, alerta.

Portanto, é fundamental lembrar sempre quais são as melhores maneiras de se prevenir do zika vírus. Todos, mas em especial as gestantes, devem evitar aglomerações em lugares onde a presença do mosquito é maior, usar roupas que protejam braços e pernas nesses locais, quando possível, fazer uso do ventilador e do ar condicionado e colocar telas nas janelas e portas.

Por ser sexualmente transmissível e, muitas vezes a pessoa infectada não apresentar sintomas, é importante que durante a gravidez o casal faça sexo seguro. “A mulher grávida pode adquirir o vírus do companheiro durante a gestação, por meio do ato sexual, portanto, é muito importante o uso de preservativo”, alerta o ginecologista e especialista em reprodução assistida, Dr. Mario Cavagna, presidente da Sociedade Brasileira de Reprodução Humana.

Consciência e cuidados

Morar junto, casar, ter filhos, formar uma família são opções de cada indivíduo e a decisão deve ser clara e consciente. Assim é também nos tempos de zika vírus. “A campanha é muito positiva e visa estimular as pessoas para que tomem decisões conscientes”, diz o ginecologista Dr. Adelino Amaral, diretor regional no Brasil da Rede Latino-americana de Reprodução Assistida. “Quando elas têm consciência de onde estão pisando, têm mais chances de ter sucesso em suas vidas”, ressalta.

Qualquer caminho escolhido pode ser postergado. Pode-se adiar essas decisões, mas no caso da gravidez, a mulher não pode e não deve esperar muito. “Com 35 anos as chances de engravidar diminuem, mas se a mulher optar pela gravidez, deve fazer isso de forma consciente de que ela pode adquirir o zika vírus, então deve buscar orientação e tomar todos os cuidados para se prevenir”, explica Adelino Amaral. E completa: “É como um dever de casa, ela está grávida e tem de tomar o máximo de cuidado para não ser contaminada”.

Para o urologista Edson Borges Jr., presidente da Sociedade Brasileira de Urologia, existe um prazo de validade em relação à fase reprodutiva da mulher e esse é um ponto de preocupação. “Uma das poucas coisas que não se pode alterar com a medicina reprodutiva é o envelhecimento dos óvulos”, destaca. “Queremos que essa mulher saiba que sim, a gravidez em tempos de zika pode ser um risco, mas um risco muito menor se comparado a dezenas de outras doenças”, alerta o Dr. Edson. “Uma gestante de 40 anos tem probabilidade de 1 para 100 de ter um bebê com Síndrome de Down, por exemplo, e uma de 35 anos tem essa probabilidade bem menor, de 1 para 300”, compara o urologista. “Portanto, precisamos orientar essa mulher em fase reprodutiva que, às vezes, adiar a gravidez pode não ter volta”, orienta. “O importante é o casal cuidar do seu planejamento familiar, sem se desesperar”, conclui.

Se o receio de engravidar for muito grande, pode-se optar por técnicas de congelamento de óvulos. O ginecologista Adelino Amaral explica: “se congelarmos os óvulos de uma mulher de 35 anos e ela resolver engravidar aos 38, suas chances são as mesmas que teria aos 35”, esclarece.

#Vamosconversar

Segundo a presidente da Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida, Hitomi Miura Nakagawa, a campanha vai informar e esclarecer a população, apresentando o que há de mais atualizado e cientificamente comprovado. “Estaremos aqui no nosso site e também nos sites das sociedades parceiras”, diz. “Vamos conversar sobre uma doença relativamente nova, que tomou uma dimensão e características particulares no Brasil, e nós precisamos minimizar o máximo possível suas sequelas durante sua passagem pelo país, permitindo que pessoas que desejam engravidar ou postergar sua gestação tenham elementos suficientes, para que possam tomar suas decisões com autonomia, segurança e baseadas em orientações fidedignas”.

Para o Dr. Mario Cavagna, a campanha quer esclarecer e orientar os casais que estejam planejando uma gravidez, sempre levando em conta o conceito de saúde reprodutiva. “Esse conceito é bem amplo e envolve a liberdade e o direito que o indivíduo tem de manter uma vida sexual satisfatória e segura e também o direito ao planejamento familiar, que inclui a decisão de ter filhos, ou não, e de quando tê- los”, explica. “Esse é um direito de todos”, conclui.

O canal agora é de vocês! Todos podem encontrar aqui as informações e as novidades sobre o zika vírus e seus desdobramentos. Para os casais que estão pensando em engravidar, para as gestantes, para os que moram em locais endêmicos, leiam, orientem-se e tomem sempre decisões conscientes.

Jornalista responsável: Cássia Fragata