#Vamos conversar com Mario Cavagna

Por Cássia Fragata

A população sabe muito pouco sobre reprodução assistida. A que o senhor atribui essa falta de informação?

O acesso às técnicas de reprodução assistida é um grande problema. Os serviços públicos não dão conta da demanda e os tratamentos em clínicas privadas são bem caros para uma parcela muito grande da população. O ideal seria que a rede pública pudesse oferecer esses tratamentos de uma maneira adequada e em vários hospitais.

Como orientar a paciente sobre o tema fertilidade e suas implicações?

A mulher, quando vai ao ginecologista, recebe orientação sobre contracepção, doenças sexualmente transmissíveis (DSTs), e vários assuntos muito importantes, fundamentais mesmo. Porém, poucos são os médicos que falam sobre a fertilidade, ou seja, há pouca informação sobre esse assunto. O ginecologista poderia orientar suas pacientes, explicando: “Você é muito fértil até os 30 anos, aos 35 reduz um pouco, mas você ainda é fértil e, a partir daí, sua fertilidade passa a diminuir bastante. Depois dos 40, isso pode complicar muito”.

O fator idade tem influência direta na fertilidade?

Sim, muito! O que vem acontecendo é que muitas mulheres não têm essa informação e várias delas acreditam que podem postergar a gravidez e, se optarem por isso, e quiserem engravidar depois dos 40 anos, elas procuram uma clínica de reprodução humana e resolvem. Isso não é verdade. Podemos resolver endometriose, fator tubário, fator masculino, anovulação – quando a mulher não ovula ou tem uma ovulação irregular –, mas a idade da mulher nós não podemos resolver! Às vezes recebemos mulheres de 44, 45 anos no consultório, solicitando tratamento para engravidar e sabemos que não vai dar certo. A sugestão é que o ginecologista oriente suas pacientes sobre o fator idade desde cedo.

De que forma a imprensa poderia colaborar com a divulgação dos temas ligados à fertilidade e à reprodução assistida?

Da parte da imprensa, vejo que às vezes se dá um destaque muito grande a uma determinada atriz, uma pessoa famosa, que engravidou aos 48, 49 anos, por exemplo, mas ninguém cita que se trata de um óvulo doado. Claro que isso é uma questão de foro íntimo, divulgar ou não, mas é importante que as pacientes saibam disso. A consequência desse tipo de informação é que chegam ao consultório mulheres com 44 ou 45 anos e nós esclarecemos que não é possível ter sucesso no tratamento. Então essas pacientes logo citam a famosa que engravidou aos 48, sem saber que os óvulos utilizados não pertenciam a ela.

Qual é a sua sugestão para que se conscientize um número cada vez maior de mulheres?

O médico da mulher é o ginecologista. Então, da mesma maneira que ele aborda a importância da contracepção, das doenças sexualmente transmissíveis (DSTs), deve informar sua paciente sobre os problemas da fertilidade e do fator idade. Antigamente esse tipo de orientação não era essencial. A menina casava aos 18 anos, engravidava aos 20, mas agora a coisa mudou totalmente, as mulheres são mães cada vez mais tarde. Portanto, é preciso que as moças recebam esse tipo de orientação desde cedo, no consultório.

Quando o congelamento de óvulos é uma boa opção?

De um modo geral sugerimos o congelamento de óvulos para as mulheres que chegam aos 30 anos de idade e não têm a gravidez como prioridade dos próximos cinco ou seis anos, ou porque querem fazer uma pós-graduação ou uma viagem ao exterior e até mesmo se dedicar à carreira. Essa é uma candidata ao congelamento de óvulos.

Como é realizado o procedimento para congelar os óvulos?

Primeiramente a mulher precisa passar por uma estimulação ovariana com duração de 10 a 15 dias, ou seja, tem de tomar medicações que façam com que os ovários produzam um grande número de óvulos, porque no ciclo natural ela vai ter um só óvulo e para congelar ela necessita do maior número possível. Depois disso a paciente é submetida à coleta dos óvulos que é feita com uma sedação, por via ultrassonográfica, um procedimento simples. Os óvulos são congelados por um processo chamado de vitrificação.

Qual é a melhor idade para fazer o congelamento de óvulos?

Do ponto de vista biológico, puramente biológico, quanto mais cedo congelarem seus óvulos, melhor, mas existem outros fatores importantes a serem levados em consideração. Um óvulo de 20 anos tem uma capacidade maravilhosa de fertilização e de formar um embrião capaz de ser implantado. É melhor aos 20 do que aos 30, mas não é possível estimular uma menina de 20 anos a congelar seus óvulos, até porque, as que congelam óvulos nessa fase acabam não usando. Elas se casam, engravidam e não os utiliza.

O limite de idade para o congelamento dos óvulos é 35 anos?

Os melhores resultados, do ponto de vista puramente biológico, de eficiência da técnica, são os tratamento feitos com óvulos congelados até 35 anos e, depois dessa idade, o tratamento começa a perder eficiência. Porém, saiu um trabalho interessante numa importante revista científica norte americana a Fertility and Sterility mostrando que do ponto de vista do custo-benefício, a melhor idade seria aos 37 anos. Explico: quem congela antes dessa idade, pode acabar não usando, mas arcando com o custo. Porém, se a mulher chega aos 37 anos e não tem parceiro ou não quer engravidar ainda, terá melhor custo-benefício se congelar nesse momento.

Depois dessa idade o bebê corre mais risco?

Depois dos 40 anos, é preciso analisar muito bem para ver se vale a pena realizar o tratamento. Na resolução do Conselho Nacional de Medicina de 2013 era proibido qualquer tipo de transferência de embrião em mulheres com mais de 50 anos. Em 2015, o Conselho mudou essa resolução e deixou a responsabilidade da decisão para o médico e a paciente. Mas é importante ressaltar: qualquer gravidez após os 50 anos é de altíssimo risco para a mãe e para o bebê.

Qual é o conselho para quem quer uma gravidez, natural ou não, em tempos de zika vírus?

Pelo que estamos vendo, o zika veio para ficar, então, a orientação é que a mulher que quer engravidar, o faça, mas que tome todos os cuidados necessários, evitando o contato com o mosquito aedes aegypti, em especial as que estão em áreas consideradas de risco.

O zika vírus tem relação com a microcefalia?

Não há mais dúvidas de que o vírus pode causar lesões sérias no cérebro do feto, principalmente no primeiro trimestre da gravidez, mas é essencial que se mantenha os cuidados durante toda a gestação: evitar o mosquito, usar repelente, roupas compridas, que cubram as partes mais baixas do corpo e praticar sexo com preservativo.

O zika é transmitido por contato sexual?

Sim, a transmissão também pode acontecer pela via sexual – do homem para a mulher e da mulher para o homem –, por isso é fundamental o uso do preservativo durante toda a gravidez, caso o companheiro tenha apresentado algum sintoma ou viajado para região endêmica. É importante ressaltar ainda que, se a mulher ou o homem tiverem tido sintoma de zika ou fizerem alguma viagem para uma região de alto risco, esperem pelo menos seis meses para engravidar.

Como perceber esses sintomas do zika vírus?

Há estudos sendo feitos que mostram que muitas vezes os pacientes sequer lembram dos sintomas, mas algum deles esteve presente em determinado momento, uma febrinha ou manchas na pele, por exemplo. Se isso aconteceu com você, homem ou mulher, aguarde seis meses antes de pensar em engravidar.

Caso os sintomas não sejam percebidos, quais os exames que podem ser feitos para detecção do vírus?

O teste seguro para detecção do zika é feito por biologia molecular, chama-se PCR e é feito na urina. Aqueles feitos por sorologia apresentam problemas de reação cruzada com a dengue, com a febre amarela, com a vacina de febre amarela, portanto, é melhor avaliar o paciente clinicamente do que por meio desse tipo de exame, pois é muito difícil detectar a contaminação por zika através da sorologia.

Casais que vão passar pelo tratamento de reprodução assistida devem fazer o exame de zika?

Essa é uma luta nossa, da Sociedade Brasileira de Reprodução Humana – SBRH, da Sociedade Brasileira de Reprodução Assistida – SBRA, da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia – FEBRASGO, da Sociedade Brasileira de Urologia – SBU e a Sociedade Brasileira de Infectologia – SBI, que objetiva que a ANVISA reveja sua determinação de obrigar a sorologia antes do processo de reprodução assistida porque isso, além de onerar o casal, dificulta o tratamento, causando angustia e ansiedade nos pacientes. O melhor é avaliar o homem e a mulher clinicamente.

Jornalista responsável: Cássia Fragata