Uma Campanha de Conscientização

Por Cássia Fragata

Formas de transmissão, sintomas, gestação, prevenção e conscientização foram alguns dos temas abordados. 

Conheça sua opinião e suas orientações sobre o zika vírus e lembre-se: seja qual for a sua decisão, faça-a de forma consciente. 

Gravidez em Tempos de Zika – Quais as formas de transmissão do zika vírus?

Dr. Adelino Amaral Silva – A principal forma de transmissão é através da picada do aedes aegypti, o mesmo mosquito que transmite a dengue, a chikungunya e a febre amarela e é muito presente nos países tropicais, de clima quente. O contágio pode acontecer também pela transfusão de sangue, quando o doador tem o zika em período de viremia (presença do vírus na corrente sanguínea) e ainda há a transmissão durante a gestação, da mãe para o feto. Outra forma de contágio é a transmissão sexual, mas, sem sombra de dúvida, a forma preponderante de transmissão do zika vírus é por meio do mosquito.

GTZ – Só o homem transmite o vírus para a mulher por meio de contato sexual ou a mulher também transmite?

AAS – Já está bem documentado em estudos que o homem pode transmitir o zika pela relação sexual porque o vírus está presente em grande quantidade no esperma e, recentemente, foi relatado um caso de transmissão sexual de mulher para homem.

GTZ – Quais as diferenças entre zika vírus, dengue e chikungunya?

AAS – O que pesa são os sinais e os sintomas das doenças. A principal diferença do zika é a manifestação cutânea, manchas avermelhadas, exantema, como chamamos, que se formam na pele. Já a chikungunya se manifesta com dores articulares conhecidas como dores nas juntas, enquanto a dengue se apresenta com dor óssea e um mal estar muito grande, com dores por todo o corpo. Então com esse espectro clínico é possível fazer um diagnóstico. É importante observar os tipos de sintomas para definir a doença.

GTZ – Os sintomas sempre estão presentes? 

AAS – Infelizmente cerca de 80% das pessoas são assintomáticas, ou seja, não têm nenhuma manifestação clínica, o que dificulta muito para diagnosticar a doença.

GTZ – É possível transmitir o vírus sem ter sintomas?

AAS – Sim. Uma pessoa pode ter o vírus, pode transmiti-lo e não ter nenhuma manifestação clínica.

GTZ – Nesses casos, há exames que comprovem a doença?

AAS – Existem exames, que ainda não são os ideais, como os sorológicos e o PCR, que é um exame de DNA, mas eles só são solicitados quando há manifestação clínica, sintomas. Nos casos de grandes populações, você tem de ter essa suspeita clínica para requerer os exames, por enquanto eles não são realizados aleatoriamente.

GTZ – Se uma pessoa teve o zika vírus uma vez, pode ter novamente?

AAS – A manifestação da doença é rápida, a partir do momento da exposição, em menos de uma semana ela se manifesta. A grande dúvida agora é se ela vai gerar imunidade. Por exemplo, sabemos que se você tem rubéola uma vez, nunca mais terá a doença, pois o seu organismo produziu anticorpos que te protegerão para toda a vida. Pressupõe-se que com o zika será a mesma coisa, mas ainda não temos dados suficientes para afirmar isso, pois a doença ainda é uma novidade. Está sendo realizada uma gama de pesquisas e com elas teremos mais conhecimento sobre os mecanismos do zika vírus.

GTZ – Quais os conselhos o senhor daria a quem quer engravidar em tempos de zika? 

AAS – O momento de engravidar é uma decisão da mulher, individual, ou em conjunto com seu companheiro. O importante é que ela se proteja! Mesmo que não esteja em área de endemia, com grande incidência da doença, recomendo o uso do repelente – como aqueles à base de icaridina, que podem ser passados duas vezes ao dia e protegem por longos períodos –, usar roupas protetoras, com mangas longas e calças compridas, procurar dormir em ambientes mais frios – se possível com ar condicionado ou ventilador –, usar telas nas janelas e participar das campanhas do Governo, procurando eliminar os focos do mosquito, sendo também uma vigilante de sua vizinhança para ajudar a combater os criadouros do mosquito, que seria a única forma eficaz de acabar com a doença.

GTZ – No caso da gestante se contaminar com o zika vírus, o que ela deve fazer?

AAS – Se você está grávida e pegou a doença, o que nos resta é fazer um seguimento muito bem feito da gestação. É necessário que se confirme o diagnóstico de zika e, se confirmado, deve-se monitorar o feto durante toda a gravidez. Infelizmente, não há nenhuma medida eficiente para evitar a transmissão da mãe para o bebê. Se você tem alguma manifestação clínica é necessário um pré-natal diferenciado.

GTZ – Qual é a relação do zika vírus com a microcefalia? 

AAS – A gestante contaminada pelo zika pode transmitir o vírus para o feto que pode, ou não, desenvolver a microcefalia. O que já se sabe com a publicação de muitos estudos é que esse comprometimento do feto de gestantes que contraíram a doença pode variar de 0,8% a 13%, uma incidência bastante alta.

GTZ – Existe um período da gravidez mais perigoso?

AAS – Sim. Quanto mais precoce a gravidez, maior é a incidência da transmissão fetal do zika vírus e maior é o dano ao feto. Por exemplo, para uma gestante que é contaminada com 6 semanas de gravidez, um mês e meio, o dano ao feto é bem maior do que se ela adquirisse essa infecção com 4 ou 5 meses de gravidez. Funciona muito semelhante à síndrome da rubéola congênita. A fase mais crítica é quando acontece a transmissão nos três primeiros meses de gestação. Mas o zika não é o único causador da microcefalia.

GTZ – Como a microcefalia atinge o feto? 

AAS – Quando o cérebro do bebê está em formação – quando acontece o seu desenvolvimento e de suas conexões nervosas –, a microcefalia ataca essas células nervosas e mata muitas delas. Com isso o cérebro diminui e a criança pode ter várias deficiências por causa de um não desenvolvimento neurológico completo. Ela pode ter problemas de visão, de surdez, de cognição, de paralisia, portanto, é muito danoso mesmo.

GTZ – É possível fazer o diagnóstico da microcefalia durante a gestação?

AAS – Se a gestante tem a doença e o feto foi comprometido é possível fazer o diagnóstico da microcefalia antes de 20 semanas de gravidez pelo tamanho da calota craniana do bebê. Depois ele deve ser acompanhado por um serviço que tenha assistência ao recém-nascido com microcefalia para que tenha todas as condições de ter a supervisão adequada.

GTZ – O feto atingido pela microcefalia pode ser uma criança normal? 

AAS – Depende do grau de destruição dessas células nervosas. Se houve muito dano, dificilmente, do contrário, você tem graus de severidade dentro da própria microcefalia.

GTZ – Por que algumas mães contaminadas pelo zika transmitem o vírus e outras não? 

AAS – Não existem estudos definitivos, mas pode estar relacionado ao sistema imunológico da gestante. Como se ela tivesse um nível de imunidade mais eficiente que não permitiu que o nível de viremia ultrapassasse a barreira placentária.

GTZ – No caso das mulheres que preferem adiar a gravidez, qual a orientação?

AAS – As mulheres podem postergar a gestação e tentar engravidar em um momento em que essa epidemia esteja recrudescendo, devem buscar períodos em que não tenha chuva quando os criadouros do mosquito são menores, mas algumas mulheres não podem protelar muito por causa da idade. Sabemos que com 35 anos a mulher diminui suas chances de engravidar, ela não pode esperar muito mais, portanto, tem de fazer isso de forma consciente, sabendo que é possível adquirir o vírus. Portanto, é fundamental que tome todos os cuidados para se prevenir do zika vírus: fuja do mosquito, use repelente e roupas que cubram braços e pernas, coloque telas nas janelas e portas e utilize ventilador ou ar condicionado. É um dever de casa, se você está grávida, tem de tomar o máximo de cuidado.

GTZ – Quais são as opções para as mulheres que temem a gravidez, mas já não podem adiar muito por causa da idade?

AAS – Se estiver com muito receio de engravidar, você pode usar as técnicas de congelamento de óvulos e engravidar em momento em que o zika esteja mais controlado. Se congelarmos os óvulos de uma mulher de 35 anos e ela decidir engravidar aos 38, suas chances de sucesso são as mesmas que teria aos 35. No caso da população mais jovem, ela pode perfeitamente, engravidar ou não engravidar, dependendo do seu desejo individual.

GTZ – Qual é o objetivo da campanha #vamosconversar?

AAS – Essa campanha visa principalmente o esclarecimento para que as pessoas tomem decisões conscientes. A campanha é muito positiva porque quando se tem consciência de onde estamos pisando, temos mais chances de obter sucesso em nossas vidas. Ter filhos hoje é uma responsabilidade muito grande, nossa função como trabalhadores da área da saúde, que cuidam das mulheres que querem ter filhos, é ajudá-las a terem seus filhos saudáveis. Devemos mostrar que é possível engravidar com segurança, desde que se tome essa decisão de forma consciente.

Jornalista responsável: Cássia Fragata